Juntos
para sempre
«O verdadeiro amor é não de um dia, mas de sempre», afirmou Charles-Ferdinand Ramuz 1,
e na Bíblia lemos: «Amor e fidelidade andam de mãos dadas» (cf. Sl 89).
Ao contrário destas afirmações, tudo
nos leva a pensar, no mundo atual, que é disparate acreditar na estabilidade
das relações humanas. Então, a fidelidade será uma graça concedida, uma
provação sobre-humana, um ideal inacessível ou será um desejo partilhado, uma decisão
refletida?
As estatísticas indicam que, em cada
três casais, um está condenado ao fracasso. Da mesma forma, os geneticistas
dizem que, se no genoma humano se encontra uma predisposição a apaixonar-se,
não se encontra qualquer suporte que indicie que assim se ficará ou porquanto
tempo os apaixonados são capazes de ficar juntos.
Segundo a psicologia comparativa,
poderia parecer natural que os homens, e também as mulheres, se afastassem dos
cônjuges em certos períodos e, em certas circunstâncias, fossem infiéis. Será,
então, contra a natureza que pessoas que se escolheram livremente se mantenham fiéis
até que a morte as separe? As leis da natureza não são leis inelutáveis que
regem os nossos comportamentos. Se o homem se adapta facilmente ao seu
ambiente, o seu comportamento continua a ser flexível: dispõe de remédios para
tecer a sua história e para dar
significado às relações e ao diálogo.
Para manter –se fiel, é preciso tomar a decisão de se manter
constante, é preciso querer. A vontade desempenha um papel capital na dinâmica
própria da fidelidade
É fiel aquele «que não falta aos
compromissos assumidos e que demonstra uma afeição constante», diz o
dicionário, e acrescenta: «é fiel aquele que mantém relações amorosas apenas
com a pessoa com quem se comprometeu». A modernidade não encoraja a monogamia nem
a fidelidade, não valoriza o vínculo nem a duração. Duas pessoas
que se aproximaram uma da outra e que
se maravilharam com os novos sentimentos de ternura que sentem uma pela outra
desejam que esse estado se eternize. Prometem uma à outra fidelidade para toda
a vida. Essa promessa tenta suprir a falta que resulta da inevitável diferença que
sempre separa os apaixonados. É o mistério de toda a relação humana. Mas qual é
o apaixonado que não tem a convicção íntima de que os sentimentos que
experimenta pelo outro resistirão à erosão do tempo e asseguram a permanência?
A tensão da vida que suscita o nosso
desejo e alimenta a nossa expectativa e a nossa imaginação pode, infelizmente,
ser fonte de desencanto. A harmonia no casal é corroída pelo tempo e pelas
dúvidas: as experiências apaixonadas e intensas com o outro vão diminuindo, e
ninguém se pode instalar na convicção
de que o cônjuge lhe pertence até ao fim dos seus dias. A partir desta dolorosa
verificação, é-se levado a interrogar-se sobre se não se terá feito um erro na
escolha do cônjuge.
A ciência não nos dá remédios fáceis
para forjar relações duradouras e fecundas. No entanto, as sondagens revelam
que a grande maioria dos casais está satisfeita com a sua vida em comum, apesar
das imperfeições do seu comportamento sexual. «Nunca te esqueças que, num bom casamento , o mais importante não
é a felicidade mas a estabilidade », faz o poeta García Márquez 2 dizer
a uma das suas personagens em “O amor no tempo da cólera”. A
estabilidade é um fator bem colocado na escala dos critérios necessários ao
êxito de uma vida de casal.
1 Escritor
suíço (1878-1947).
2 Escritor
colombiano, Prémio Nobel da literatura 1982.
Griffo
nosso
A fidelidade deve ser
inovadora
Para os aventureiros do casamento, o «duro
desejo de permanecer» (Paul Eluard 3) e a fé forjam a intenção de dar
sentido a uma relação, de inventar um novo estilo de vida, «de escrever uma
história numa relação com o passado, numa atenção ao presente e numa vigilância
relativamente ao futuro» (cf. Gérard Bailhache). E, uma vez que
estou convencido de que só o outro me pode fazer feliz, e que por isso
representa para mim a felicidade, poderá haver a mínima dúvida quanto à minha
competência e aos meus meios para satisfazer o seu desejo, para querer o seu
bem com todo o meu ser? Mas a parte de incerteza inerente a este pacto de
solidariedade e à promessa de fidelidade pode infelizmente dar lugar também à
traição, se o diálogo no casal não tiver sabido dissipar as tensões que resultam
da oposição entre o desejo e a realidade.
A fidelidade conjugal «contra ventos e
marés» é uma dimensão fundamental da nossa humanidade. São muitos os lugares da
fidelidade: a religião, a família, a amizade, os compromissos … Desde Homero, ela
é cantada pelos poetas em todo o mundo; faz vibrar os corações e faz correr
lágrimas. Tem por objeto homens de todas as idades, mas não pode ser dissociada
do amor.
Se o dicionário descreve a fidelidade
como qualidade do que respeita compromissos assumidos, o aspecto que aqui nos
interessa é o testemunho de pessoas que cumprem a sua promessa e respeitam os seus
compromissos para com o cônjuge até ao limite do possível. Descobre-se, então,
a força dessa fidelidade que é a própria força da fé, tradução do latim fides:
fé no vínculo, fé no outro e, para o crente, abertura à transcendência,
à verdade e à eternidade: Deus.
A fidelidade não está em crise, ela
própria é crise, porque incessantemente e a todo o instante nos obriga a
manter uma decisão, tomada no impulso do início, de refazer uma promessa
abalada pelos cantos melodiosos das sereias, de voltar a dar uma palavra
enterrada no esquecimento. Nem a fidelidade nem a infidelidade são fatalidades.
A fidelidade constrói-se, dia a dia, com perseverança e energia. Estaremos
prontos a pagar esse preço por um ideal em que se fundamentam a história das
nossas comunidades e o futuro do nosso casamento?
A
construção da fidelidade no casal assenta em quatro pilares:
* A fidelidade
conjuga-se com a confiança: iniciar uma relação de
confiança com alguém é uma maneira de dar ao outro a importância a que ele tem
direito, de lhe dizer: Tu és uma pessoa e não um objeto intermutável e
manipulável consoante as minhas emoções, os meus desejos, os meus instintos.
Mereces consideração e respeito. A fidelidade pressupõe um contrato, uma
declaração de intenção e de crédito. Para dar crédito a alguém é preciso
Conhecer esse alguém de verdade: é preciso confiar no
ser amado; «o verdadeiro amor não é de um dia … não tínhamos nada para começar,
tudo estava por fazer» (Charles-Ferdinand Ramuz). É preciso fazer um esforço
para manter um vínculo e para respeitar uma promessa feita. Nos nossos
esforços, somos ajudados pela representação da felicidade suscitada em nós pela
ternura e pela cumplicidade com o outro, ser de carne e osso. A manutenção do vínculo
não é um apego a si mesmo, uma atitude moral que a razão nos imponha; é a
encarnação de um contrato de vida, e esse contrato deve ser revisto, corrigido,
retomado todos os dias, tendo
em conta os contratempos da vida
quotidiana.
* A fidelidade
desenvolve-se no tempo, e isto pode ser interpretado como um desafio
lançado ao tempo. O tempo é irreversível. Não é um longo rio tranquilo. Quantos
meios é preciso pôr em ação para passar do imaginário ao real, da
nostalgia do passado às previsões do futuro! O tempo é uma oportunidade para a
construção de uma relação. Permite que a vida seja criativa. O tempo não é só
desgaste, é também impulso vital. O amor, sobretudo, amadurece: pode melhorar como o vinho.
A harmonia que se estabelece com o tempo é certamente menos apaixonada e menos passional do que a do início, mas
torna-se mais real. Já não estamos
Sozinhos a correr o permanente risco inerente a essa
relação paradoxal de entrega de si a outro/a, de oferenda ao outro do que nos é
mais caro: nós próprios. O risco já não é solitário: a fidelidade vive-se com
outra pessoa, é caminho de descoberta de si e do outro que passou a ser a
pessoa mais próxima. Qualquer que seja o futuro que tivermos imaginado, ele
nunca se realiza sem que tenhamos sido secretamente desiludidos. A fidelidade, tal
como a ternura, tem incessantemente necessidade de palavras para se dizer, se
partilhar, se construir, se recompor.
* A fidelidade passa
pelo perdão. Para
o diálogo e para a escuta no respeito é preciso explorar as
alegrias e as provações, as traições e as decepções que correm o risco de levar
ao desencanto. Por vezes, fazem-se ouvir os apelos dissimulados da tentação: por
que será preciso renunciar? O diálogo é indispensável à construção de uma
relação, ao passo que o silêncio lhe é funesto. Quando surgem divergências
profundas que provocam rupturas
ou traições, a frágil fidelidade
humana precisa de ser rodeada de tacto e de solicitude. Ela não está inscrita
nos nossos genes. Podemos aprender palavra a palavra e passo a passo a
atravessar na paciência essas obscuridades quando já não sentimos nada,
quando já não compreendemos nada. Toda a falta pode ser perdoada, desde que se
queira. O perdão está no centro da aventura conjugal e, para lá dos conflitos,
é preciso acreditar na reconciliação possível. Quem ama verdadeiramente é
levado a perdoar. Estender a mão e deixar que nos deem a mão: eis o segredo do
perdão, que não é resignação mas fonte de fecundidade e de liberdade. O perdão
restitui a paz, enquanto o perdão recusado asfixia.
* A fidelidade é uma arte
de viver. Não
é uma ascese. Há que sublinhar a importância do ato sexual, profunda e ligeira
ao mesmo tempo, e levar a sério a atração dos sentidos, os seus aspectos de gratuidade,
de poesia e até de desordem. Nos nossos dias, já não é possível silenciar o
papel positivo do prazer carnal sobre o qual se constrói a estabilidade do
casal e que não deve ser asfixiado sob o peso das regras morais. A fidelidade
deve ser inventiva, não se deve tornar monótona nem enfadonha. Os cônjuges são
chamados a reajustar constantemente a sua vida em comum a novas referências, a
cultivar o prazer de estarem juntos de modo a que bastem poucas palavras e
poucos gestos de ternura para responder às expectativas do outro. Isto supõe
uma grande disponibilidade e uma grande exigência, pessoal e recíproca. E
quando tudo vai tão bem que já não têm vontade de se separar, é preciso poderem
suportar a separação, deslocarem-se para espaços diferentes, criar lugares de
solidão possível. Compete a cada um descobrir o seu espaço interior e a
capacidade de nele se manter e de o cultivar ; isto implica que também se
respeitará o jardim secreto do outro, que nunca se lhe forçará a porta. O amor
procura penetrar os segredos íntimos do ser amado, todavia «o verdadeiro amor
contorna os segredos da solidão do ser amado e permite que ele os guarde para
si» (cf. John Merton)
Para concluir:
A fidelidade é uma atitude
responsável quotidiana que nos volta para o infinito, abrindo-nos a uma
história imprevisível. Este apelo é um convite a dar e a receber; precisamos de
aceder a questões que sabemos serem vitais, um desafio “contra todos os riscos”
ao desgaste do tempo. A fidelidade não é uma palavra, é um sinal. A
nossa fidelidade pode apoiar-se com segurança na fidelidade de Deus. A
fidelidade é o atributo mais importante de Deus e está associada à sua bondade
paternal: Ele é o “rochedo” de Israel, nome que simboliza a sua fidelidade
imutável, a verdade das suas palavras, a solidez das suas promessas. Pelo
sacramento do matrimônio, Deus consagra a nossa fidelidade conjugal através do
“Sim” que nos compromete para sempre.
Não será presunçoso fazer esta
afirmação quando se fez a experiência do silêncio de Deus no sofrimento e na
aflição? Onde está Deus no fracasso? Temos a plena revelação disto em Jesus
Cristo, cuja Paixão não é só a partilha dessa experiência de abandono, mas é
também fundadora de sentido, fazendo dela um caminho de ressurreição. Em Jesus
Cristo manifesta-se a fidelidade de Deus que vai além de todas as promessas da
Aliança. É um sinal que revela, tornando visível aos olhos dos homens o amor de
Cristo pela sua Igreja. A fidelidade de Deus reclama a nossa. Convida-nos a
estar atentos à sua presença, não para esquecer a de um ser amado mas para subir até à fonte desse amor. «Que, no
meio das mudanças do mundo, os nossos corações
se fixem onde estão as verdadeiras alegrias» (cf. Missal Romano).
( extraído do livro Homem e Mulher Ele os criou - Reflexão Crista sobre a sexualidade-
equipas de Nossa Senhora - equipa responsável internacional )
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