sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

quatro pilares da fidelidade conjugal

       
                   

                      Juntos para sempre

«O verdadeiro amor é não de um dia, mas  de sempre», afirmou Charles-Ferdinand Ramuz 1, e na Bíblia lemos: «Amor e fidelidade andam de mãos dadas» (cf. Sl 89).

Ao contrário destas afirmações, tudo nos leva a pensar, no mundo atual, que é disparate acreditar na estabilidade das relações humanas. Então, a fidelidade será uma graça concedida, uma provação sobre-humana, um ideal inacessível ou será um desejo partilhado, uma decisão  refletida?

As estatísticas indicam que, em cada três casais, um está condenado ao fracasso. Da mesma forma, os geneticistas dizem que, se no genoma humano se encontra uma predisposição a apaixonar-se, não se encontra qualquer suporte que indicie que assim se ficará ou porquanto tempo os apaixonados são capazes de ficar juntos.

Segundo a psicologia comparativa, poderia parecer natural que os homens, e também as mulheres, se afastassem dos cônjuges em certos períodos e, em certas circunstâncias, fossem infiéis. Será, então, contra a natureza que pessoas que se escolheram livremente se mantenham fiéis até que a morte as separe? As leis da natureza não são leis inelutáveis que regem os nossos comportamentos. Se o homem se adapta facilmente ao seu ambiente, o seu comportamento continua a ser flexível: dispõe de remédios para tecer a sua história e para dar
significado às relações e ao diálogo. Para  manter –se  fiel, é preciso tomar a decisão de se manter constante, é preciso querer. A vontade desempenha um papel capital na dinâmica própria da fidelidade

É fiel aquele «que não falta aos compromissos assumidos e que demonstra uma afeição constante», diz o dicionário, e acrescenta: «é fiel aquele que mantém relações amorosas apenas com a pessoa com quem se comprometeu». A modernidade não encoraja a monogamia nem a fidelidade, não valoriza o vínculo nem a duração. Duas pessoas
que se aproximaram uma da outra e que se maravilharam com os novos sentimentos de ternura que sentem uma pela outra desejam que esse estado se eternize. Prometem uma à outra fidelidade para toda a vida. Essa promessa tenta suprir a falta que resulta da inevitável diferença que sempre separa os apaixonados. É o mistério de toda a relação humana. Mas qual é o apaixonado que não tem a convicção íntima de que os sentimentos que experimenta pelo outro resistirão à erosão do tempo e asseguram a permanência?

A tensão da vida que suscita o nosso desejo e alimenta a nossa expectativa e a nossa imaginação pode, infelizmente, ser fonte de desencanto. A harmonia no casal é corroída pelo tempo e pelas dúvidas: as experiências apaixonadas e intensas com o outro vão diminuindo, e
ninguém se pode instalar na convicção de que o cônjuge lhe pertence até ao fim dos seus dias. A partir desta dolorosa verificação, é-se levado a interrogar-se sobre se não se terá feito um erro na escolha do cônjuge.

A ciência não nos dá remédios fáceis para forjar relações duradouras e fecundas. No entanto, as sondagens revelam que a grande maioria dos casais está satisfeita com a sua vida em comum, apesar das imperfeições do seu comportamento sexual. «Nunca  te  esqueças  que, num bom casamento , o mais importante não é a felicidade mas a estabilidade », faz o poeta García Márquez 2 dizer a uma das suas personagens em “O amor no tempo da cólera”. A estabilidade é um fator bem colocado na escala dos critérios necessários ao êxito de uma vida de  casal.


1 Escritor suíço (1878-1947).
2 Escritor colombiano, Prémio Nobel da literatura 1982.
Griffo nosso

A fidelidade deve ser inovadora

Para os aventureiros do casamento, o «duro desejo de permanecer» (Paul Eluard 3) e a fé forjam a intenção de dar sentido a uma relação, de inventar um novo estilo de vida, «de escrever uma história numa relação com o passado, numa atenção ao presente e numa vigilância relativamente ao futuro» (cf. Gérard Bailhache). E, uma vez que estou convencido de que só o outro me pode fazer feliz, e que por isso representa para mim a felicidade, poderá haver a mínima dúvida quanto à minha competência e aos meus meios para satisfazer o seu desejo, para querer o seu bem com todo o meu ser? Mas a parte de incerteza inerente a este pacto de solidariedade e à promessa de fidelidade pode infelizmente dar lugar também à traição, se o diálogo no casal não tiver sabido dissipar as tensões que resultam da oposição entre o desejo e a realidade.

A fidelidade conjugal «contra ventos e marés» é uma dimensão fundamental da nossa humanidade. São muitos os lugares da fidelidade: a religião, a família, a amizade, os compromissos … Desde Homero, ela é cantada pelos poetas em todo o mundo; faz vibrar os corações e faz correr lágrimas. Tem por objeto homens de todas as idades, mas não pode ser dissociada do amor.

Se o dicionário descreve a fidelidade como qualidade do que respeita compromissos assumidos, o aspecto que aqui nos interessa é o testemunho de pessoas que cumprem a sua promessa e respeitam os seus compromissos para com o cônjuge até ao limite do possível. Descobre-se, então, a força dessa fidelidade que é a própria força da fé, tradução do latim fides: fé no vínculo, fé no outro e, para o crente, abertura à transcendência, à verdade e à eternidade: Deus.

A fidelidade não está em crise, ela própria é crise, porque incessantemente e a todo o instante nos obriga a manter uma decisão, tomada no impulso do início, de refazer uma promessa abalada pelos cantos melodiosos das sereias, de voltar a dar uma palavra enterrada no esquecimento. Nem a fidelidade nem a infidelidade são fatalidades. A fidelidade constrói-se, dia a dia, com perseverança e energia. Estaremos prontos a pagar esse preço por um ideal em que se fundamentam a história das nossas comunidades e o futuro do nosso casamento?

A construção da fidelidade no casal assenta em quatro pilares:

* A fidelidade conjuga-se com a confiança: iniciar uma relação de confiança com alguém é uma maneira de dar ao outro a importância a que ele tem direito, de lhe dizer: Tu és uma pessoa e não um objeto intermutável e manipulável consoante as minhas emoções, os meus desejos, os meus instintos. Mereces consideração e respeito. A fidelidade pressupõe um contrato, uma declaração de intenção e de crédito. Para dar crédito a alguém é preciso
Conhecer  esse alguém de verdade: é preciso confiar no ser amado; «o verdadeiro amor não é de um dia … não tínhamos nada para começar, tudo estava por fazer» (Charles-Ferdinand Ramuz). É preciso fazer um esforço para manter um vínculo e para respeitar uma promessa feita. Nos nossos esforços, somos ajudados pela representação da felicidade suscitada em nós pela ternura e pela cumplicidade com o outro, ser de carne e osso. A manutenção do vínculo não é um apego a si mesmo, uma atitude moral que a razão nos imponha; é a encarnação de um contrato de vida, e esse contrato deve ser revisto, corrigido, retomado todos os dias, tendo
em conta os contratempos da vida quotidiana.

* A fidelidade desenvolve-se no tempo, e isto pode ser interpretado como um desafio lançado ao tempo. O tempo é irreversível. Não é um longo rio tranquilo. Quantos meios é preciso pôr em ação para passar do imaginário ao real, da nostalgia do passado às previsões do futuro! O tempo é uma oportunidade para a construção de uma relação. Permite que a vida seja criativa. O tempo não é só desgaste, é também impulso vital. O amor, sobretudo, amadurece: pode melhorar como o vinho. A harmonia que se estabelece com o tempo é certamente menos apaixonada  e menos passional do que a do início, mas torna-se mais real. Já não estamos
Sozinhos  a correr o permanente risco inerente a essa relação paradoxal de entrega de si a outro/a, de oferenda ao outro do que nos é mais caro: nós próprios. O risco já não é solitário: a fidelidade vive-se com outra pessoa, é caminho de descoberta de si e do outro que passou a ser a pessoa mais próxima. Qualquer que seja o futuro que tivermos imaginado, ele nunca se realiza sem que tenhamos sido secretamente desiludidos. A fidelidade, tal como a ternura, tem incessantemente necessidade de palavras para se dizer, se partilhar, se construir, se recompor.

* A fidelidade passa pelo perdão. Para o diálogo e para a escuta no respeito é preciso explorar as alegrias e as provações, as traições e as decepções que correm o risco de levar ao desencanto. Por vezes, fazem-se ouvir os apelos dissimulados da tentação: por que será preciso renunciar? O diálogo é indispensável à construção de uma relação, ao passo que o silêncio lhe é funesto. Quando surgem divergências profundas que provocam rupturas
ou traições, a frágil fidelidade humana precisa de ser rodeada de tacto e de solicitude. Ela não está inscrita nos nossos genes. Podemos aprender palavra a palavra e passo a passo a atravessar na paciência essas obscuridades quando já não sentimos nada, quando já não compreendemos nada. Toda a falta pode ser perdoada, desde que se queira. O perdão está no centro da aventura conjugal e, para lá dos conflitos, é preciso acreditar na reconciliação possível. Quem ama verdadeiramente é levado a perdoar. Estender a mão e deixar que nos deem a mão: eis o segredo do perdão, que não é resignação mas fonte de fecundidade e de liberdade. O perdão restitui a paz, enquanto o perdão recusado asfixia.

* A fidelidade é uma arte de viver. Não é uma ascese. Há que sublinhar a importância do ato sexual, profunda e ligeira ao mesmo tempo, e levar a sério a atração dos sentidos, os seus aspectos de gratuidade, de poesia e até de desordem. Nos nossos dias, já não é possível silenciar o papel positivo do prazer carnal sobre o qual se constrói a estabilidade do casal e que não deve ser asfixiado sob o peso das regras morais. A fidelidade deve ser inventiva, não se deve tornar monótona nem enfadonha. Os cônjuges são chamados a reajustar constantemente a sua vida em comum a novas referências, a cultivar o prazer de estarem juntos de modo a que bastem poucas palavras e poucos gestos de ternura para responder às expectativas do outro. Isto supõe uma grande disponibilidade e uma grande exigência, pessoal e recíproca. E quando tudo vai tão bem que já não têm vontade de se separar, é preciso poderem suportar a separação, deslocarem-se para espaços diferentes, criar lugares de solidão possível. Compete a cada um descobrir o seu espaço interior e a capacidade de nele se manter e de o cultivar ; isto implica que também se respeitará o jardim secreto do outro, que nunca se lhe forçará a porta. O amor procura penetrar os segredos íntimos do ser amado, todavia «o verdadeiro amor contorna os segredos da solidão do ser amado e permite que ele os guarde para si» (cf. John Merton)

Para concluir:
A fidelidade é uma atitude responsável quotidiana que nos volta para o infinito, abrindo-nos a uma história imprevisível. Este apelo é um convite a dar e a receber; precisamos de aceder a questões que sabemos serem vitais, um desafio “contra todos os riscos” ao desgaste do tempo. A fidelidade não é uma palavra, é um sinal. A nossa fidelidade pode apoiar-se com segurança na fidelidade de Deus. A fidelidade é o atributo mais importante de Deus e está associada à sua bondade paternal: Ele é o “rochedo” de Israel, nome que simboliza a sua fidelidade imutável, a verdade das suas palavras, a solidez das suas promessas. Pelo sacramento do matrimônio, Deus consagra a nossa fidelidade conjugal através do “Sim” que nos compromete para  sempre.

Não será presunçoso fazer esta afirmação quando se fez a experiência do silêncio de Deus no sofrimento e na aflição? Onde está Deus no fracasso? Temos a plena revelação disto em Jesus Cristo, cuja Paixão não é só a partilha dessa experiência de abandono, mas é também fundadora de sentido, fazendo dela um caminho de ressurreição. Em Jesus Cristo manifesta-se a fidelidade de Deus que vai além de todas as promessas da Aliança. É um sinal que revela, tornando visível aos olhos dos homens o amor de Cristo pela sua Igreja. A fidelidade de Deus reclama a nossa. Convida-nos a estar atentos à sua presença, não para esquecer a de um ser amado mas  para subir até à fonte desse amor. «Que, no meio das mudanças  do mundo, os nossos corações se fixem onde estão as verdadeiras alegrias» (cf. Missal Romano).

( extraído do livro Homem e Mulher Ele os criou - Reflexão Crista sobre a sexualidade-
equipas de Nossa Senhora  - equipa responsável internacional )

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